quinta-feira, 3 de março de 2011

Uma aventura insólita

Quando ele acordou, ainda era noite. Não estava na sua cama, nem em lugar nenhum que ele pudesse reconhecer. Fez força pra tentar lembrar como foi que chegara ali, mas era inútil. A última coisa de que tinha memória era do seu aniversário no dia anterior e de tomar um táxi pra sua casa, onde ao chegar, tinha assistido a um jogo de futebol, o que por si só ja era bem suspeito, uma vez que detestava aquele esporte sem sentido. Um monte de marmanjos correndo atrás de uma bola, não era exatamente a idéia que ele tinha de diversão. Mas ja estava divagando demais. Vasculhou os bolsos, e encontrou uns papéis com alguns garranchos escritos, um isqueiro, e uma caixinha de chicletes vazia. Estava escuro ainda, de modo que a primeira coisa a que ele deu alguma atenção foi ao isqueiro, principalmente porque ele não fumava, então era estranho ter um no seu bolso. No entanto, ficou agradecido por ter com que iluminar o lugar onde estava.

Após alguns minutos tentando aprender alguma coisa sobre o lugar onde estava, mas era um quarto sem muita coisa que pudesse lhe esclarecer. Resolveu sair dali, e foi até a porta. Esta parecia muito solida, e por um momento ele temeu que ela estivesse trancada. Felizmente ela se abriu sem opor nenhuma resistência, e ele se arriscou a dar uma olhada para fora do quarto.

Ficou bem surpreso ao constatar que estava em uma especie de cabana, no meio de algum bosque, ou floresta, não dava pra saber. Mas ainda não conseguia imaginar como chegara ali. Teria sido um sequestro? Dificilmente. Não tinha muito dinheiro, nem parentes, nem ninguem pra pagar o resgate. Teria usado algum tipo de droga? Talvez, mas não se lembrava disso. Será que estava morto? Se beliscou pra ver, mas doeu um pouquinho. Menos do que deveria doer, mas doeu.

Resolveu ir andando por uma trilha, e encontrou depois de um tempo uma casa. Ao chegar mais perto dela, pra sua agonia, descobriu que era exatamente a mesma casa onde acordou. Ele tinha certeza de estar andando em linha reta, mas não havia dúvidas de que estava diante da casa de onde tinha saído antes.resolveu testar novamente, mas pegando uma bifurcação na trilha de antes, e seguindo o mais possível para a direita. Depois de algo em torno de uma hora de caminhada, ele alcançou a casa de novo. Não era do tipo que se assustava fácil, mas aquilo foi começando a lhe incomodar. Alguma coisa estava muito errada por ali. Começou a sentir muita fome, o que era uma coisa boa. Não estava morto afinal. Isso era consolador, mas implicava em mais uma coisa que ele deveria resolver. Parou próximo à uma arvorezinha, que tinha uns frutinhos roxos, e resolveu arriscar. Comeu o primeiro, bem devagar. O gosto não era muito bom, mas não parecia venenoso. Então comeu até ficar satisfeito. Continuou caminhando e percebeu que aquelas frutinhas abundavam por toda àrea. Menos um problema, ele pensou, e continuou caminhando, entre o empolgado com a nova situação, e o assustado, por não saber o que esperar. E assim o dia todo se passou, sem que fosse possivel chegar a lugar nenhum. Muitos dias se passaram dessa forma. Muitos anos. As vezes ele se perguntava se aquilo era alguma espécie de castigo. As vezes se congratulava pela sua sorte. Podia perceber que não estava raciocinando da maneira usual. Talvez estivesse melhor. Talvez pior. Talvez estivesse apenas ficando louco. Não saberia dizer. Não tinha nenhum parâmetro de comparação, então não dava pra dizer com certeza. Não havia nenhum animal, ser humano, nem nada pra conversar. Notou um dia que tinha esquecido o som da sua voz, e ao tentar relembrar falando, só o que ouviu foi uma especie de grunhido estranho, e percebeu que ja não possuia linguagem articulada.Não se lembrava das palavras, só nas ideias por trás do que via, ou pensava. Viu que de certa maneira isso lhe agradava. E se antes poderia se preocupar por não se fazer entender quando o resgate finalmente chegasse, agora ja havia se desembaraçado há muito da idéia de deixar aquele lugar. Lembrava muito vagamente da vida que levava antes de chegar ali,mas ou menos como a gente tenta lembrar de um sonho que teve na noite anterior, mas vai ficando mas dificil de lembrar, à medida que o dia avança. Era assim com sua vida anterior. Apenas um sonho que cada vez mais era esquecido, sendo substituido por um entopercimento agradável na parte do cérebro que comanda a memória.

Assim era sua vida. Uma sucessão de eventos, que não se ligavam necessariamente entre si. Sem memória do passado, sem preocupação pelo futuro, apenas uma vaga idéia, impossivel de conceituar por meios usuais, que ressoava na sua cabeça, dizendo que só o que ele via e tocava nesse momento importava. E de alguma forma, agora que ele estava despido de quaisquer valores que ele possa ter tido um dia, finalmente ele se sentiu realmente feliz. Muito embora sua capacidade de perceber isso já estivesse morta fazia tempo...

Em tempo: Os papeis que ele tinha encontrado no bolso tinham dicas pra ele sair daquele lugar, mas ele não era muito chegado a jogos de rpg, então ficou sem saber que podia apertar start, para acessar o menu de opções. Realmente uma pena.

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